segunda-feira, 23 de junho de 2014

Aqui fora, a festa é a mesma

É um dia frio. A brisa sopra leve do Rio Guaíba, logo ao lado, mas não tira a angústia de torcedores que, empunhando bandeiras, camisas e rostos pintados, observam o grande telão. Na imagem, uma partida entre duas seleções, que estão jogando ali próximo, no Estádio Beira-Rio, uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Aos poucos, o sol vai dando lugar à escuridão, as camisas são escondidas pelas blusas mais pesadas, a agonia é substituída pela emoção - ou frustração, dependendo do lado em que você está. Seja bem-vindo à FIFA Fan Fest.
Criada em 2002 pela entidade que organiza os Mundiais de futebol, e ocorrendo a cada quatro anos na mesma sede da competição entre seleções, o evento gratuito destina-se a acolher a grande maioria de turistas que quer viver o clima da Copa, mas não conseguiu ingressos para adentrar à arena do espetáculo. Aqui, do lado de fora, a festa não dura somente os noventa minutos da partida, mas dias inteiros.
Fui a um destes eventos em uma ocasião ainda mais especial para muitos dos visitantes. A partida entre Argélia x Coreia do Sul ocorreria naquele dia, e poderia ser a oportunidade de ver como a paixão pela equipe poderia superar as fronteiras oceânicas. Argelinos cruzaram meio mundo para chegar a Porto Alegre; coreanos, um planeta inteiro. Nada poderia tirar a fantástica sensação de estar em um lugar totalmente novo, com uma cultura diferenciada - se para brasileiros o Rio Grande do Sul já é território desconhecido, o que dirão os estrangeiros.
Grata surpresa quando chego: um trio elétrico com torcedores argelinos na subida da avenida Borges de Medeiros, para quem sai do Mercado Público em direção ao Centro Administrativo, em uma trilha urbana de cerca de dois quilômetros, bem sinalizada, intitulada propositalmente "Caminho do Gol". Músicas em árabe dão o tom da festa, mas chama a atenção a quantidade de câmeras apontadas para os torcedores, dada a dimensão e a espontaneidade do evento.

Festa argelina em Porto Alegre: praticamente em casa (Reprodução/Facebook)

À medida em que me aproximo do Anfiteatro Pôr-do-Sol, novas manifestações ocorrem, mas dando a entender que os africanos do norte estão mais confiantes no resultado da partida do que os leste-asiáticos, mesmo que, até ali, ambas as seleções necessitavam da vitória para continuar sonhando com uma vaga na próxima fase. A Argélia havia perdido o primeiro jogo para a Bélgica; a Coreia do Sul empatara com os russos.
Na Fan Fest, tudo é clima de festa, realmente. Torcedores com bandeiras da Bélgica, Austrália, Rússia, México dividiam espaço com as duas seleções a se enfrentarem no Beira-Rio, e é claro, com muitos brasileiros e... argentinos. Dezenas deles. A Argentina é a próxima equipe a jogar em Porto Alegre, contra a Nigéria. Duzentos mil hermanos são esperados para esta partida, somente na capital gaúcha.
Chega próximo das dezesseis horas e a maioria dos argelinos e sul-coreanos somem. Provavelmente tomam o rumo do estádio, que logo mais toma conta do telão instalado acima do palco principal da Fan Fest. A imagem, em altíssima definição, mostra a arena pintada de verde e vermelho, as cores de Argélia e Coreia do Sul. Aqui embaixo, tive sorte. Logo, um grupo de três argelinos se instala em minha frente, para acompanhar o jogo ali próximo.
No campo, vitória da seleção africana, 4 a 2. Que bom, estava torcendo por eles, tanto pela simpatia demonstrada quanto pelo entusiasmo geral da torcida verde-e-branco.

Turistas argelinos acompanhando o jogo da seleção nacional na Fan Fest: emoção estampada nas bandeiras (Reprodução/Facebook)
 
Vi gritos, vivas e certas lamentações por vezes, câmeras de TV procurando curiosos - os turistas diante de mim foram entrevistados pelo menos três vezes - e pessoas somente interessadas pelo espetáculo. Mas vi principalmente o que a paixão pelo futebol consegue inspirar nos seres humanos, residentes ou estrangeiros, independentemente de idioma. Mais ou menos como afirmou o presidente da FIFA, Joseph Blatter, em citação trazida pelo site oficial da entidade: "A Fan Fest vai continuar a ser uma parte fundamental das edições futuras da Copa do Mundo. Essa decisão foi tomada há muito tempo, e pelos próprios fãs."

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Flappy Bird: o sucesso que bateu no cano

Nas últimas semanas, e em especial há alguns dias, o vício em jogos para smartphones e tablets ganhou um novo representante: o Flappy Bird. Se você esteve longe dos principais sites de tecnologia ou mesmo sem nenhuma conexão com o mundo online, provavelmente não deve saber do que isto se trata. De qualquer forma, é uma história de amor e ódio.
De acordo com o Google Trends, o título começou a despertar interesse mundial a partir da última semana de janeiro. O game, que não dava mostras ainda de ser o sucesso que se tornou, estava numa trajetória ascendente de interesse por parte dos usuários, já que era gratuito e relativamente fácil de manusear, mas difícil de concluir.

Não quis clicar no link acima? Tudo bem, a gente mostra o gráfico para você





Neste ponto, é bom explicar como o Flappy Bird funciona, para entender o restante do post. A mecânica dele é simples, assim como o objetivo. Você conduz um pássaro da espécie 8-bits em um cenário 2D, similar ao Mario's World (aquele mesmo), e deve apertar na tela inúmeras vezes para que o mesmo se mantenha em voo. Cada toque é um impulso, e você deve deixá-lo guiar-se pela gravidade para fazer subi-lo e descer, conforme passa no meio de canos acima e abaixo dele. Encostando-se em um deles, é game over na certa.

É isto. Bonitinho, não? Fonte: Venture Beat



É claro que a ideia é fazê-lo voar o máximo possível, e cada cano ultrapassado vale um ponto. A dificuldade dele é tanta que há um esquema de "medalhas", offline até onde sei, onde vinte canos corresponde a prata e dez canos bronze (no momento desta postagem não havia passado de 29), mas claro que há ouro e até platina para os mais equilibrados.
Flappy Bird é física, pois permite controlar o voo do pássaro em relação à gravidade que quer fazer com que você bata a cabeça nos canos; é matemática, pois você deve calcular o número de toques na tela para fazer com que o animal virtual passe entre as peças; é psicologia também, por treinar o equilíbrio e concentração do jogador - é quase yoga.
E aí nos voltamos ao desenvolvedor. Vietnamita e empreendedor, o jovem Dong Nguyen virou o nome mais comentado do meio tecnológico assim, ao acaso. Seu game foi baixado por milhões de pessoas, ele primeiramente gostou do sucesso mas experimentou o gosto amargo dos 15 minutos milhões de downloads de fama. Dong sentiu-se vazio, triste e solitário. Prova de que o dinheiro é móvel, assim como as plataformas em que lançou o Flappy Bird: cinquenta mil dólares por dia, só em anúncios. E ele resolveu tirar o jogo do ar.
Seu Twitter, @dongatory, ficou lotado de usuários confusos, e que principalmente o acusavam de ter realizado uma grande jogada de marketing, além de ter recebido ameaças da Nintendo, que, por ora, justifica-se, até mesmo se fosse verdade. Os canos não são patenteados, mas são similares aos vistos na série do encanador mais famoso dos games.
Flappy Bird não está mais disponível para iOS, tampouco Android, mas usuários já realizaram façanhas para manter o jogo às luzes da Internet. Criaram páginas com os arquivos do mesmo, para download não oficial, ou criaram leilões para vender smartphones com o jogo instalado por preços absurdos.
Depois desta, Dong sumiu, e seus tweets não são mais visíveis desde o último sábado, 8 de fevereiro. De todas as formas, Flappy Bird pode ter sido um viral passageiro. Ou mesmo um bater de asas rápido de um pássaro, que voa mas não se sustenta no ar por muito tempo. Cai pela falta de forças, ou porque bate na parede da realidade; fazer sucesso no mundo virtual é sujeitar-se a todo tipo de crítica.


sábado, 25 de janeiro de 2014

3650 dias de Orkut


O ano era 2004. Em algum lugar da Índia, muito longe daqui, alguém teve uma ideia genial: criar uma rede social com o objetivo de juntar pessoas com interesses em comum. Caso alguém encontrasse afinidade com determinada ideia, podia adicioná-la ao seus interesses através das chamadas "comunidades", e acompanhar, assim como em um fórum, as postagens sobre aquele assunto. Se houvesse afinidade entre duas pessoas, a primeira "adicionava" a segunda, e, mediante um aceite desta, a primeira podia receber atualizações constantes desta em sua página principal, e vice-versa.
Não entendeu? É mais simples do que parece. Ideia simples, e foi desta forma que nasceu o Orkut.
Em agosto de 2008, escrevi um pouco sobre ele no desativado Blog Azul da Morte, o que era o máximo, pois, em seu auge - mais ou menos naquela época -, a rede social começava a receber aplicativos para integrar ainda mais seus usuários.

Nada de sites de notícias, o noticioso da internet estava no Orkut. Fonte aqui, link da matéria real aqui.

Sites assim não são novidade. Em um terreno quase totalmente dominado atualmente pelo Facebook (há controvérsias que afirmam que há concorrência, pelo menos no mundo oriental), o Orkut mostrou-se extremamente importante como ferramenta de registro histórico no Brasil. Sério, não é exagero, temos nos servidores do Google, que hospeda, com muita relutância, as inúmeras páginas, fotos, recados e depoimentos, nada mais do que uma grande amostra de tudo o que foi assunto de dez anos para cá. Com cerca de trinta e cinco milhões de usuários ativos no país no pico de sua utilização, o Orkut guarda todas estas memórias de maneira que nenhuma outra plataforma colaborativa trouxe na história da internet. Que o diga as classes C e D, que impulsionaram muito a ascensão do site à categoria citada. Inclusão digital e Orkut caminham lado a lado, até hoje.
Pois bem, em 24 de janeiro último, a rede social preferida dos HUEHUE BR BR completou dez anos. É uma década de histórias, contadas através de seus milhões de perfis, ativos ou não (por "ativos" diz-se daqueles não migrados para o Google+, natimorto). Dez anos de GIFs comemorativos, de colheitas felizes.
Para a internet brasileira, que, na época da popularização do site, ainda estava na era discada e majoritariamente dominada pelos computadores de mesa, cerca de metade do tempo.

Infográfico mostrando o poder do Orkut: isso aí em 2011, lembra?
Teve gente que ganhou um dinheiro razoável com o sucesso da rede. Mais como administrador de comunidades, em que havia anúncios patrocinados em um esquema independente gerenciado por ele próprio, mas também havia quem ajudava amantes da música através do upload de álbuns inteiros de forma gratuita - lembrança do Discografias, maior comunidade do gênero no Orkut, entre outras formas de utilização do site. As possibilidades eram infinitas.
Mesmo perdendo mais de noventa e cinco por cento de market share em três anos, o Orkut nunca perderá sua magia. Como rede social que deu vazão aos pensamentos dos brasileiros, em sua maioria, ele deve ser posicionado em destaque junto aos sites que fizeram relativa fama no Brasil. Ali, junto aos eternos seniores.

Semana que vem é a vez dos não menos importantes, e coincidentes, dez anos do Facebook, a serem comemorados, de acordo com a Wikipedia, em 4 de fevereiro próximo.